Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

Chega de excessos! A nova tendência médica que prioriza a qualidade em vez da quantidade 

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A medicina preventiva costuma ser associada quase automaticamente à ideia de rastrear mais, investigar mais e antecipar diagnósticos com a maior frequência possível. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para um conceito menos conhecido do público, mas cada vez mais discutido entre especialistas, que caminha justamente na direção oposta: a prevenção quaternária, definida como o conjunto de ações voltadas a evitar excesso de intervenção médica, protegendo o paciente dos riscos de um sistema de saúde que, por vezes, investiga além do que realmente traz benefício.

Esse conceito nasceu como complemento às três formas tradicionais de prevenção já conhecidas, que evitam o surgimento da doença, buscam sua detecção precoce ou reduzem suas complicações depois de instalada. A prevenção quaternária, por sua vez, mira um alvo diferente: o próprio excesso de medicina, capaz de gerar exames desnecessários, diagnósticos que nunca precisariam ter sido feitos e tratamentos que trazem mais risco do que proteção. Entender essa lógica e como ela se aplica na prática do diagnóstico por imagem ajuda a explicar por que fazer mais nem sempre significa cuidar melhor.

Por que a medicina passou a se preocupar com o próprio excesso de investigação?

Ao longo das últimas décadas, o avanço da tecnologia de imagem tornou possível enxergar cada vez mais detalhes do corpo humano, incluindo pequenas alterações que, em boa parte dos casos, jamais evoluiriam para um problema de saúde relevante. Esse ganho de sensibilidade trouxe um efeito colateral silencioso: quanto mais um exame consegue enxergar, maior a chance de encontrar algo que, décadas atrás, simplesmente passaria despercebido e nunca chegaria a incomodar o paciente ao longo da vida.

Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa mudança de escala trouxe um dilema novo para a radiologia: cada achado precisa ser interpretado não apenas pela sua presença, mas pelo seu real significado clínico, já que nem toda alteração visível na imagem representa, de fato, uma ameaça concreta à saúde do paciente. Para ele, esse é um dos motivos pelos quais a prevenção quaternária ganhou relevância justamente na era da tecnologia de imagem mais sofisticada já disponível na história da medicina.

Como o sobrediagnóstico se conecta diretamente a esse conceito?

O sobrediagnóstico, fenômeno já conhecido em diversas áreas da oncologia, é um dos exemplos mais claros de prevenção quaternária aplicada na prática: identificar uma lesão que, sem qualquer intervenção, jamais causaria sintomas ou risco de morte durante a vida do paciente, mas que, uma vez descoberta, dificilmente deixa de ser tratada como se fosse uma ameaça real. Esse padrão aparece em diferentes contextos do diagnóstico por imagem, sempre trazendo a mesma tensão entre agir com cautela e agir com excesso de zelo.

 Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues
Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o desafio central está em comunicar essa nuance sem soar como se a medicina estivesse recomendando negligência. Ele reforça que prevenção quaternária não significa investigar menos por economia ou desleixo, e sim investigar de forma mais criteriosa, reservando exames complementares e intervenções mais invasivas para os casos em que a evidência científica realmente sustenta esse próximo passo.

O que muda, na prática, quando um serviço de saúde adota essa filosofia?

Serviços que incorporam a lógica da prevenção quaternária costumam revisar protocolos com maior frequência, questionando se determinado exame de rotina, antes solicitado quase automaticamente, ainda se justifica diante das evidências científicas mais recentes. Essa postura também aparece em diretrizes que passam a recomendar intervalos mais espaçados entre exames, ou que definem categorias de vigilância em vez de tratamento imediato para achados de baixo risco, como já acontece em algumas discussões sobre lesões mamárias de comportamento incerto.

Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, incorporar essa filosofia dentro de políticas públicas de saúde exige coragem institucional, já que reduzir a quantidade de exames solicitados, mesmo quando cientificamente justificado, costuma ser mal interpretado pela população como um corte de acesso, e não como um refinamento de qualidade. Ele frisa que comunicar bem essa diferença é tão importante quanto a própria decisão técnica de ajustar um protocolo.

Como o paciente pode entender essa lógica sem sentir que está sendo negligenciado?

A prevenção quaternária não propõe menos cuidado, mas cuidado mais preciso, no qual cada exame solicitado carrega justificativa clara e cada achado encontrado recebe a interpretação correspondente ao seu real significado clínico. Isso significa que, em determinadas situações, a recomendação médica mais responsável pode ser simplesmente observar e aguardar, em vez de intervir imediatamente diante de qualquer alteração encontrada.

O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que essa mudança de mentalidade representa um amadurecimento da própria medicina preventiva, que deixa de medir sucesso apenas pela quantidade de exames realizados e passa a valorizar também a qualidade do julgamento clínico por trás de cada decisão tomada.

Incorporar a prevenção quaternária ao vocabulário da saúde pública não diminui a importância do rastreamento populacional, mas complementa essa lógica com um cuidado adicional: garantir que o sistema de saúde não gere, ele próprio, ansiedade e intervenção desnecessária em nome de uma vigilância que, em excesso, pode custar mais do que protege.

Nesse sentido, o verdadeiro equilíbrio da medicina preventiva está em saber quando investigar e quando esperar, sem perder de vista que tanto a omissão quanto o excesso podem, cada um à sua maneira, prejudicar o paciente que confia sua saúde a esse cuidado.

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