Cantora assume posto para 2027, participa da disputa do samba-enredo e aproxima sua carreira internacional de uma das maiores tradições culturais do Brasil.
A confirmação de Anitta como nova rainha de bateria da Grande Rio, anunciada no último domingo, 6 de setembro, colocou o Carnaval de 2027 no centro das conversas culturais antes mesmo do desfile acontecer. Aos 33 anos, a cantora assumirá o posto que era ocupado por Virginia Fonseca e terá pela frente uma função que vai muito além de aparecer à frente dos ritmistas: será necessário construir uma relação com a comunidade de Duque de Caxias e entender profundamente uma tradição que envolve música, dança, território, memória e identidade. (gshow)
A novidade ganhou ainda mais peso porque Anitta não chega à Grande Rio apenas como celebridade convidada. Ela também integra a disputa pelo samba-enredo da escola e participa de uma composição relacionada ao enredo que será levado à Sapucaí. Para quem acompanha música brasileira, a pergunta mais interessante é justamente esta: o que significa uma estrela do pop e do funk assumir um papel tão simbólico dentro de uma escola de samba?
Anitta não chega apenas como celebridade: ela também participa da música da Grande Rio
A relação de Anitta com a Grande Rio começou antes do anúncio como rainha de bateria. A cantora está entre os compositores de um dos sambas que disputam a escolha oficial para o Carnaval de 2027, em uma composição assinada também por Arlindinho, Igor Leal, Fred Camacho, Fabian Juarez e Diego Nicolau. A obra, intitulada “Sankofa”, aborda a conexão entre Brasil e Gana e dialoga diretamente com o enredo “Sankofa Tabom – Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”. A disputa dos sambas começou em setembro, com a final prevista para o dia 20. (gshow)
Esse detalhe muda bastante a leitura sobre a chegada da cantora. Anitta não está simplesmente emprestando sua imagem para uma escola de samba em busca de visibilidade: ela também está participando de um processo musical que exige composição, interpretação e compreensão da narrativa escolhida pela agremiação. O samba-enredo é uma peça fundamental do Carnaval, porque transforma uma história ou conceito em música capaz de conduzir milhares de pessoas durante o desfile. Ao entrar nesse processo, a artista aproxima duas partes importantes de sua carreira: a música popular contemporânea e uma das formas mais tradicionais de criação coletiva do Brasil.
A própria Anitta explicou que a identificação com o enredo foi decisiva para aceitar o convite para ser rainha de bateria. Em sua manifestação publicada nas redes sociais, ela destacou temas como fé, ancestralidade, retorno ao país e passagem do tempo, afirmando que a proposta dialogava com o momento que vive em sua carreira. A Grande Rio levará para a avenida uma narrativa sobre africanos escravizados que retornaram à Costa do Ouro, região correspondente ao atual território de Gana, depois de conquistarem a liberdade. (F5 Folha)
A escolha também evidencia como o Carnaval continua sendo um espaço de encontro entre diferentes gerações e linguagens musicais. Anitta construiu uma carreira internacional baseada principalmente em funk, pop e música urbana, enquanto o samba-enredo possui uma linguagem própria e uma relação profunda com a comunidade. A aproximação não elimina essas diferenças; ao contrário, cria uma oportunidade para observar como gêneros distintos podem conversar quando existe um projeto cultural comum. Para o público, o resultado poderá ser percebido principalmente na avenida, quando música, fantasia, bateria, dança e narrativa se transformarem em um único espetáculo.
O que muda para a Grande Rio com Anitta como rainha de bateria
O posto de rainha de bateria possui uma dimensão que ultrapassa a estética do desfile. A figura posicionada à frente dos ritmistas funciona como um dos principais símbolos visuais da escola e precisa estabelecer uma relação de respeito com os integrantes da comunidade. Por isso, Anitta afirmou que pretende assumir a função com responsabilidade e que seu futuro no cargo dependerá também da aceitação dos moradores e integrantes da agremiação. A declaração é importante porque reconhece que a Grande Rio não é apenas uma marca de Carnaval, mas uma instituição cultural ligada a Duque de Caxias e à sua comunidade. (UOL)
A cantora também terá de conciliar o novo compromisso com uma agenda profissional extremamente movimentada. Shows, gravações, compromissos internacionais e projetos audiovisuais fazem parte de sua rotina, enquanto a preparação para o Carnaval exige ensaios, presença em eventos da escola e construção de vínculo com a comunidade. A própria Anitta reconheceu esse desafio ao falar sobre sua agenda e prometeu se dedicar ao máximo para representar a Grande Rio. O tamanho da tarefa ajuda a explicar por que a escolha é culturalmente relevante: quanto maior a projeção da personalidade escolhida, maior também é a responsabilidade de transformar visibilidade em participação efetiva.
A mudança ainda ocorre depois da saída de Virginia Fonseca, que deixou o posto em agosto para dedicar mais tempo aos filhos e às próprias empresas. A troca gerou uma discussão adicional nas redes sociais depois que a equipe de Virginia afirmou que ela estaria disponível para uma tradicional cerimônia de passagem da coroa, mas que o procedimento teria sido cancelado após uma solicitação atribuída à nova rainha. A assessoria da Grande Rio declarou desconhecer a informação apresentada pela equipe da influenciadora, enquanto Anitta não tratou o episódio como uma disputa pessoal. (F5 Folha)
O assunto, porém, não deve esconder o aspecto mais importante da mudança. Paolla Oliveira, que também ocupou o posto anteriormente, parabenizou Anitta publicamente e desejou sucesso à cantora, afastando a ideia de que a troca precise ser tratada como uma competição entre rainhas. A própria Anitta afirmou ter conversado com Paolla antes de aceitar o convite e destacou a generosidade da atriz em compartilhar experiências e conselhos. Esse movimento ajuda a recolocar a discussão no lugar que realmente interessa: a construção do desfile e a relação entre a artista escolhida e a comunidade da escola. (gshow)
Por que a chegada de Anitta reforça a força cultural do Carnaval brasileiro
A escolha de uma artista como Anitta demonstra também a capacidade que o Carnaval possui de dialogar com fenômenos contemporâneos da música. O desfile das escolas de samba continua sendo uma manifestação tradicional, mas nunca foi uma expressão cultural parada no tempo. Ao longo das décadas, incorporou novos ritmos, tecnologias, artistas, linguagens visuais e diferentes formas de comunicação com o público. A presença de Anitta pode ser compreendida dentro dessa transformação permanente, na qual tradição e cultura pop convivem sem que uma necessariamente precise eliminar a outra.
Para a indústria musical, a aproximação é igualmente significativa. Anitta possui uma audiência que ultrapassa as fronteiras brasileiras e pode levar o interesse por uma escola de samba a pessoas que talvez não acompanhassem o Carnaval de maneira habitual. Ao mesmo tempo, a artista passa a ocupar um espaço no qual a comunidade, a bateria e o samba-enredo possuem protagonismo próprio. Essa troca pode funcionar como uma via de mão dupla: o Carnaval ganha alcance junto a novos públicos, enquanto Anitta incorpora à sua trajetória uma experiência profundamente ligada à cultura brasileira.
A relação com o samba não é completamente inédita para a cantora. Em 2024, Anitta participou da composição do samba-enredo “Logun-Edé: Santo Menino Que Velho Respeita”, da Unidos da Tijuca, para o Carnaval seguinte. Agora, na Grande Rio, ela volta a participar de uma disputa de samba-enredo e, simultaneamente, assume a função de rainha de bateria. A diferença é que, desta vez, sua presença envolve várias dimensões da escola e pode resultar em uma participação ainda mais profunda no ciclo carnavalesco. (Billboard Brasil)
O momento também é interessante porque acontece enquanto Anitta atravessa uma fase de expansão de sua identidade artística. O encontro entre sua experiência internacional, o funk, o pop e agora o samba-enredo reforça uma característica marcante de sua carreira: a capacidade de circular por diferentes territórios musicais sem abandonar a referência brasileira. No caso da Grande Rio, essa mistura ganha um significado especial porque o enredo de 2027 trata justamente de ancestralidade, deslocamento, identidade e retorno. São temas que permitem conectar a história apresentada pela escola à própria discussão contemporânea sobre como a cultura brasileira se constrói a partir de múltiplas influências.
O Carnaval de 2027, portanto, já começa a ganhar uma narrativa muito antes de os carros alegóricos chegarem à Sapucaí. Anitta terá de transformar a enorme popularidade conquistada no pop em presença efetiva dentro da Grande Rio, enquanto a escola terá a oportunidade de apresentar sua história a um público ainda mais amplo. A coroação está prevista para 20 de setembro, mesma data marcada para a final que escolherá o samba-enredo da agremiação, criando um dos primeiros grandes momentos da temporada carnavalesca. (Billboard Brasil)
Para quem acompanha música e cultura brasileira, vale observar principalmente o que acontecerá depois do anúncio. O verdadeiro impacto da escolha não estará apenas nas fotografias da nova rainha, mas nos ensaios, na relação com a bateria, na disputa do samba e na forma como a comunidade receberá a artista. Se essa aproximação funcionar, Anitta poderá transformar uma nova etapa de sua carreira em uma experiência de pertencimento cultural, enquanto a Grande Rio amplia ainda mais a conversa entre tradição carnavalesca e música popular contemporânea.
