Guilherme Campos

Assumir uma incorporação parada não começa do zero

Yui Moritan
5 Min de leitura

O desenvolvedor imobiliário Guilherme Campos pondera que assumir uma incorporação parada, com obra paralisada e prédio pela metade, parece uma oportunidade de comprar barato e terminar o que outro empresário não conseguiu. Na prática, quem compra esse tipo de projeto raramente começa do zero: herda também tudo que já foi negociado antes, muitas vezes por um preço bem diferente do que o mercado pratica hoje.

Empreendimentos travados por falta de caixa, disputa societária ou recuperação judicial da incorporadora original costumam continuar tendo compradores que já pagaram parte das parcelas, com contratos plenamente válidos amarrados àquele projeto específico, independentemente de quem assume a obra depois.

Um cenário comum: comprar o terreno e a obra de uma incorporação parada

Considere um empreendimento que parou pela metade depois que a incorporadora original enfrentou dificuldades financeiras. Um novo investidor negocia a compra do terreno, da obra em andamento e dos direitos sobre o projeto, atraído pelo desconto em relação ao valor de mercado da região, sem necessariamente conhecer a fundo a situação jurídica das unidades já comercializadas.

Guilherme Campos aponta que o desconto no preço costuma refletir justamente o risco jurídico embutido na operação, e não apenas a urgência do vendedor em se desfazer de um ativo problemático, um detalhe que passa despercebido quando a negociação avança rápido demais.

O que se herda junto com o canteiro: os contratos dos compradores antigos

Quem assume o projeto normalmente assume também a obrigação de entregar as unidades já vendidas, nas condições contratadas originalmente, mesmo que o preço e as condições de pagamento não sejam mais atraentes para o novo incorporador.

Renegociar esses contratos com os compradores antigos, quando necessário, exige tempo e disposição para negociação individual, já que cada comprador tem direitos próprios sobre a unidade que já reservou, independentemente de quem assume a incorporação depois ou das novas condições de custo que o projeto passou a ter.

Guilherme Campos
Guilherme Campos

Por que o patrimônio de afetação, quando existe, muda essa conta?

Se o empreendimento tinha patrimônio de afetação instituído, os recursos e obrigações daquele projeto seguem separados do restante do patrimônio da incorporadora original, mesmo em caso de falência dela, o que facilita a continuidade da obra sob nova gestão sem tanta disputa sobre os recursos já aplicados no canteiro. Essa separação patrimonial, prevista na Lei 10.931 de 2004, significa que o dinheiro pago pelos compradores e destinado àquela obra específica não pode ser usado para quitar dívidas de outros empreendimentos da mesma incorporadora, nem confundido com o patrimônio pessoal dos sócios.

Guilherme Campos considera que verificar a existência e a real efetividade dessa proteção é um dos primeiros passos antes de negociar a retomada de qualquer projeto parado, porque sua ausência pode significar disputa direta com outros credores da incorporadora original sobre o mesmo patrimônio, incluindo bens que já deveriam pertencer exclusivamente àquela obra.

Na prática, isso exige checar não só se o patrimônio de afetação foi formalmente instituído em cartório, mas também se a contabilidade da obra foi de fato mantida separada ao longo de toda a execução, já que muitas incorporadoras em dificuldade acabam misturando caixa entre projetos diferentes justamente quando o problema financeiro começa a aparecer.

O que checar antes de assumir esse tipo de projeto?

Por fim, Guilherme Campos reforça que levantar a lista completa de unidades vendidas, valores já recebidos, condições contratuais pendentes e eventual processo de recuperação judicial ou falência em curso é o mínimo antes de colocar qualquer valor sobre a mesa nesse tipo de negociação, mesmo quando o vendedor apresenta o negócio como simples e já resolvido.

Retomar uma obra parada pode, sim, ser um bom negócio, mas só quando o comprador entra com clareza sobre o que está herdando junto com o canteiro, e não apenas focado no desconto que tornou a oportunidade atraente à primeira vista, sem medir o custo real de assumir compromissos assumidos por outra pessoa. Quem quiser acompanhar mais sobre gestão de grandes projetos imobiliários pode seguir o perfil @guicamposvlg no Instagram.

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